10 novembro 2006
Desencontros
Todas as ruas são paralelas
Todas as ruas, paralelas, contêm a possibilidade
Numa perpendicular
Todas as ruas são anónimas
Todas as ruas, anónimas, contêm a possibilidade
Numa perpendicular
Todas as ruas são vazias
Todas as ruas, vazias, contêm a possibilidade
Numa perpendicular
Todas as ruas se repetem
Todas as ruas apagam a tua identidade, ao passares
Numa perpendicular
Todas as ruas que percorro
Todas as ruas que morro, me apagam
Numa perpendicular
Todas as ruas são silêncio
Todas as ruas são ausência
Mas todas as ruas que invento, ao passar, cruzam as tuas
Numa perpendicular...
03 novembro 2006
Crepúsculos de Esquecimento
Exorto os caminhos do sangue
Em crepúsculos de esquecimento
Em espinhos daninhos… os pés rasgados de dor.
Um estertor convulsivo, de silvas na pele
Na carne e nos nervos lacerados
Por sujas mãos de devaneio compulsivo
Num súbito desejo, fútil e cheio de nada
Construído em muros de insanidade
Que se erguem neste infinito estar aqui…
Sedentos, paridos de sentidos e
Velados, perscrutam
No intento de sentir-absorver essa verdade.
Mas, sempiterna e permanente, ela se oculta
Expectante, no rasgar dos véus
Dessa hipócrita-envolvente-ambiguidade,
De vencer sem pudor ou receio de morrer
Esses ardis furtivos da vaidade
Em laivos de permanente horror
E destruir com sede essa Vontade,
Parida, das entranhas da carne…
Mas num instante último, que recordo, escolher
Desvelar lentamente e com prazer, em enigmas seculares
O que, no lugar da memória, não é mais que uma história
Ou um segredo por contar.
24 outubro 2006
As Palavras
Há muito que as palavras são como os frutos proibidos
Da tua boca ousarei colhê-las
E em pequenas sílabas, saboreá-las
Como um dia Adão...
As palavras
São o pecado original que ainda não cometemos...
23 outubro 2006
...
Nos dias turvos da tua ausência
Uma memória gélida me percorre a alma
em vazio silencioso
...
Como se o toque da morte passasse pelo corpo
Sem razão para ficar...
03 outubro 2006
Entranhas
Entranhas estranhas do pensamento
Que as mãos da razão revolvem e volvem e sorvem
Com sabor de raiva na boca… Tudo é solidão
E a dor que desprezo, renego e enterro
Com gestos de amor, é um clamor, um louvor
Nos teus lábios de sangue.
No teu corpo, um grito mudo… Eterno, esse
Desejo que beijo na espuma salgada da tua pele.
É o tudo e o nada, extintos
No vento que brame, nos olhos exangues
Nas asas de um corvo, que mordo
Que morro.
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